O Debate Urgente: A Ciência e a Cautela Contra a Retórica Activista

A opinião pública e as políticas de saúde exigem fundamentação empírica. No artigo “O que há para debater?”, publicado por Francis Salema no Público — talvez o órgão de comunicação social mais transactivista de Portugal —, assiste-se a uma abordagem puramente emocional, típica do transactivismo. O autor esquiva-se a responder a preocupações científicas concretas, rotulando qualquer questionamento como “transfobia” ou “ódio ao vivo”. No entanto, o debate sobre o bem-estar dos menores é urgente e legítimo.

Peritagem versus Vivência Subjectiva

Francis Salema, activista da associação TransMissão e da Brigada Estudantil, escreve a partir de uma perspectiva puramente subjectiva. Sendo um estudante do ensino secundário, carece de formação médica ou psicológica. Isto não significa, evidentemente, que alguém sem formação académica que estude profundamente o fenómeno esteja impedido de falar ou escrever sobre o assunto com propriedade; contudo, percebe-se claramente que o jovem Francis não apresenta uma reflexão aprofundada, limitando-se a debitar a narrativa activista de vitimização e de acusação cega, assente na dicotomia simplista entre a vítima e o opressor. Embora a sua experiência pessoal seja válida, ela não pode servir de base para políticas públicas que afectam crianças e jovens vulneráveis. O activismo juvenil tende a priorizar narrativas emocionais em detrimento de dados clínicos e de critérios de saúde pública.

A Realidade dos Dados e o Fenómeno Social

Não existe uma campanha orquestrada de “extermínio” contra adultos trans. Estes cidadãos merecem plena compaixão, direitos civis iguais e a desmedicalização sempre que possível. A verdadeira preocupação reside na explosão recente de casos de disforia de género em menores, especialmente em raparigas adolescentes.

Estudos clínicos robustos, como os liderados pela investigadora Lisa Littman com mais de 1600 casos, identificam um padrão claro:

  • Início Súbito: Acontece na adolescência, sem qualquer historial na infância;
  • Contágio Social: Manifesta-se em grupos de pares e é potenciado por redes sociais (TikTok e Instagram);
  • Comorbilidades Elevadas: Associa-se a elevadas taxas de autismo, depressão e homossexualidade internalizada.

Esta explosão estatística — que na Suécia atingiu um aumento de 1500% em raparigas dos 13 aos 17 anos — ultrapassa a mera “aceitação social”. Trata-se de um fenómeno epidemiológico que exige avaliação cuidadosa.

O Consenso Neurocientífico e os Riscos Médicos

A biologia e a neurociência explicam por que motivo os menores não possuem maturidade legal ou cognitiva para a autodeterminação sexual. O córtex pré-frontal, responsável pelo planeamento a longo prazo e pela avaliação de consequências complexas, só atinge a maturação plena por volta dos 25 anos. Até essa idade, os jovens são movidos pela amígdala cerebral, que privilegia a emoção, a recompensa imediata e a conformidade com o grupo.

Submeter jovens nesta fase a intervenções médicas irreversíveis viola o princípio hipocrático de “primeiro, não fazer mal”:

  • Bloqueadores de Puberdade: Comprometem a densidade óssea, o desenvolvimento cognitivo e a fertilidade futura;
  • Hormonas Cruzadas: Elevam riscos cardiovasculares e causam infertilidade;
  • Cirurgias: Mastectomias e faloplastias provocam mutilações permanentes.

Historicamente, entre 80% a 90% dos casos de disforia na infância resolviam-se espontaneamente após a puberdade. O actual modelo de afirmação imediata pára e bloqueia essa resolução natural.

A Mudança de Paradigma na Europa e o Relatório Cass

A Europa está a abandonar o modelo de afirmação cega. O Reino Unido encerrou a clínica Tavistock após graves falhas detectadas na auditoria independente conhecida como Cass Review (Relatório Cass). Países como a Suécia, a Finlândia e a Noruega determinaram que a evidência científica para tratamentos médicos em menores é extremamente fraca. Estes países priorizam agora a psicoterapia exploratória, restringindo hormonas a ensaios clínicos controlados. Portugal deve seguir urgentemente este caminho de prudência médica.

O Impacto Escolar e Familiar

O transactivismo tem avançado em contextos escolares através de protocolos que afastam as famílias do processo. Práticas que incentivam a transição social secreta (como a mudança de nome e pronomes na escola sem o conhecimento dos pais) destroem o vínculo familiar. O enquadramento de pais cépticos como “abusivos” serve frequentemente para alimentar um ecossistema de financiamento a organizações não-governamentais (ONG). Criam-se redes de apoio que estimulam a rotura familiar, resultando em intervenções judiciais perversas contra pais protectores.

A Indústria de Género e a Detransição

A medicina de género transformou-se num mercado global multimilionário. Contudo, o reverso desta rápida expansão é a emergência da indústria de detransição. Em 2026, instituições de referência, como o Texas Children’s Hospital, abriram clínicas específicas para apoiar jovens arrependidos.

As taxas de descontinuação e detransição variam entre 1% e mais de 13% na literatura médica, chegando a atingir os 30% em estudos recentes com acompanhamento de curto prazo. Muitos jovens relatam que a transição falhou em resolver os seus problemas de saúde mental subjacentes e lamentam a perda irreversível da sua fertilidade.

Conclusão

O artigo de Francis Salema reflecte um activismo sincero, mas acrítico. Equiparar a prudência médica e o rigor científico a discursos de ódio constitui um erro grave. Defender as crianças contra modas sociais e tratamentos experimentais não é um ataque aos direitos dos adultos. Pelo contrário, é o cumprimento do dever de protecção dos mais vulneráveis. O silenciamento do contraditório é anticientífico; debater este tema com base na ciência e no neurodesenvolvimento é imperativo.