1. Introdução: Contextualização do Simpósio e a Nova Designação Clínica
O 27º Simpósio Científico da WPATH (World Professional Association for Transgender Health) foi o cenário para a publicação das “Standards of Care for the Health of Transgender and Gender Diverse People, Version 8” (SOC8). No âmbito desta nova edição, a introdução do Capítulo 9, intitulado “Eunuchs”, constitui um desenvolvimento significativo, formalizando a “Disforia de Género de Masculino para Eunuco” no espectro dos cuidados de afirmação de género. Esta medida visa reconhecer e responder às necessidades de uma população até agora largamente invisível para a comunidade médica.
Na sessão dedicada a este tema, os oradores Thomas W. Johnson, PhD, e Michael S. Irwig, MD, apresentaram o enquadramento antropológico e as diretrizes clínicas que sustentam este novo capítulo. Este relatório sintetiza os argumentos apresentados, detalha as orientações propostas para o cuidado clínico e analisa as reações e preocupações levantadas pelos profissionais de saúde presentes. A compreensão do enquadramento histórico apresentado é fundamental para analisar a base sobre a qual se assenta a legitimação contemporânea da identidade de eunuco.

2. O Enquadramento Histórico e Antropológico da Identidade de Eunuco
A análise do Dr. Thomas W. Johnson sublinhou a importância estratégica de compreender o contexto histórico para desmistificar a identidade de eunuco no mundo moderno. A rationale apresentada por Johnson visa legitimar o eunuco como “o género mais antigo reconhecido fora do binário”, demonstrando que os indivíduos com esta identidade ocuparam historicamente papéis sociais proeminentes e diversificados, que transcendem largamente os estereótipos contemporâneos.
A narrativa histórica apresentada por Johnson pode ser resumida nos seguintes pontos-chave:
- Origem e Transposição: A prática da castração teve origem na domesticação de animais e foi subsequentemente aplicada a escravos na Suméria, onde estes eram tratados como “animais domésticos não reprodutores”.
- Evolução para Funções de Poder: As alterações comportamentais induzidas pela castração foram rapidamente reconhecidas como vantajosas para funções administrativas. Na Assíria, a prática evoluiu ao ponto de famílias importantes castrarem os filhos mais novos para lhes assegurar posições na burocracia estatal.
- Proeminência Institucional: Ao longo da história, os eunucos tornaram-se figuras centrais em hierarquias religiosas (incluindo no cristianismo primitivo), militares e administrativas em toda a massa terrestre da Eurásia.
- Liderança Militar: Contrariando estereótipos de passividade, os eunucos foram proeminentes comandantes militares; nas guerras entre o Império Bizantino e o Califado muçulmano, era comum que os comandantes de ambos os exércitos fossem eunucos.
- Presença Contemporânea: A tradição persiste em contextos específicos, como o dos “Guardiões do Túmulo do Profeta em Medina”.
Esta proeminência histórica estabelece um forte contraste com a invisibilidade e o estigma que caracterizam a identidade de eunuco na sociedade ocidental contemporânea, um desafio central que as novas diretrizes procuram abordar.
3. Perfil do Indivíduo que se Identifica como Eunuco na Atualidade
No Ocidente, a identidade de eunuco é descrita como um “género invisível”, dado que a maioria dos indivíduos apresenta-se publicamente como masculina. Esta secção destila as características demográficas, psicológicas e motivacionais dos indivíduos que procuram a castração voluntária, com base nos dados e observações do Dr. Johnson, segundo o qual se estima a existência de oito a dez mil eunucos voluntários autoidentificados na América do Norte atualmente.
Demografia e Antecedentes
Os dados apresentados sugerem que a população de eunucos e de indivíduos que aspiram a sê-lo (“wannabes”) possui um nível de educação significativamente superior à média da população geral dos EUA. Adicionalmente, uma percentagem muito maior destes indivíduos cresceu em ambientes rurais.
| Característica Demográfica | População de Eunucos / Wannabes | Média da População dos EUA |
| Percentagem com Licenciatura (idade > 25) | 48.2% – 49.0% | 30.4% |
| Percentagem com Doutoramento ou Grau Profissional | 6.7% – 8.2% | 3.0% |
| Percentagem que cresceu numa quinta (Pop. geral EUA ref. Censo 1970) | 18.0% | 2.5% |
Motivações e Fatores de Influência
As razões para procurar a castração são complexas e multifatoriais. As principais motivações abrangidas pelas diretrizes da SOC8 incluem:
- Disforia de Género de Masculino para Eunuco: Um desejo de ser emasculado e de não ser masculino, sem o desejo concomitante de se tornar feminino.
- Disforia de Integridade Corporal (Body Integrity Dysphoria): A sensação de que os genitais não são uma parte correta do seu corpo, uma condição classificada no ICD-11 (6C21).
- A Procura pela “Calma de Eunuco”: Um estado caracterizado pela redução da libido e da “agressão reativa” (associada à impulsividade e perda de controlo), mantendo a “agressão proativa” (planeamento estratégico) intacta.
- Experiências de Vida: Fatores como a familiaridade com a castração de animais e uma prevalência descrita como “assustadora” de ameaças de castração durante a infância.
É crucial notar que o Dr. Johnson especificou que indivíduos cujas motivações se baseiam em fetiches extremos ou perturbações parafílicas não estão incluídos no âmbito do capítulo da SOC8 sobre eunucos, sendo estes considerados uma categoria distinta.
Alcance e Interesse
Os dados indicam um interesse substancial nesta identidade. Um website frequentado pela comunidade registou, num dado momento, 2.613 leitores em tempo real, dos quais apenas 11 eram membros registados. O provedor do site reporta entre 100.000 e 200.000 endereços IP únicos a aceder ao conteúdo mensalmente, o que sugere uma procura de informação não atendida pelos sistemas de saúde.
Definido o perfil desta população, o relatório foca-se agora no quadro clínico proposto pela SOC8 para o seu acompanhamento.
4. O Quadro Clínico Proposto nas Normas de Cuidado (SOC8)
O quadro clínico articulado pelo Dr. Michael S. Irwig posiciona as diretrizes da SOC8 como um marco para uma “das comunidades mais marginalizadas e estigmatizadas”. O novo capítulo visa fornecer um caminho formal para que os profissionais de saúde ofereçam cuidados adequados e seguros, com um foco central na prevenção de danos, competência profissional e respeito pela autonomia do paciente.
As quatro declarações (“Statements”) do capítulo da SOC8 sobre eunucos são as seguintes:
1. Aplicação das Recomendações: Os profissionais de saúde devem aplicar as diretrizes da SOC8 para responder às necessidades dos indivíduos eunucos. A justificação baseia-se na falta de conhecimento da comunidade médica e no receio dos pacientes de não serem aceites, o que os leva a evitar cuidados essenciais.
2. Prevenção de Danos: Recomenda-se que os profissionais considerem a intervenção médica e/ou cirúrgica quando existe um risco elevado de que a recusa do tratamento leve o indivíduo a recorrer a autocirurgia ou a procedimentos por praticantes não qualificados. A urgência desta recomendação é sublinhada pela realidade de automutilações realizadas com “instrumentos usados para castrar animais”.
3. Competência Profissional: Os profissionais de saúde que avaliam indivíduos eunucos devem demonstrar competência específica nesta área. A necessidade desta competência é crítica, pois, devido ao intenso estigma, os pacientes podem não revelar voluntariamente a sua identidade, exigindo do clínico uma capacidade informada para identificar as suas necessidades.
4. Educação e Aconselhamento Sexual: Sugere-se a inclusão de educação e aconselhamento sexual, reconhecendo a diversidade de desejos e relacionamentos entre os eunucos. A diretriz fundamental é não fazer suposições sobre a sexualidade destes indivíduos.
As opções de intervenção médica e cirúrgica mencionadas pelo Dr. Irwig incluem:
- Castração química: Utilização de supressores hormonais como um “ensaio” para permitir que o indivíduo experiencie os efeitos da deficiência androgénica antes de uma decisão cirúrgica irreversível.
- Orquiectomia (com ou sem penectomia): Remoção cirúrgica dos testículos para eliminar a produção de testosterona e alinhar o corpo com a identidade do indivíduo.
- Terapia de substituição hormonal: Após a orquiectomia, a administração controlada de testosterona ou estrogénio pode ser utilizada para mitigar os efeitos adversos do hipogonadismo na saúde óssea e na composição corporal.
A aplicação destas diretrizes enfrenta, contudo, desafios significativos, nomeadamente o estigma que rodeia os pacientes, conforme ilustrado pelos casos clínicos apresentados.
5. Realidades Clínicas: Estigma e Desafios de Diagnóstico
A análise dos estudos de caso do Dr. Irwig revela uma dissonância significativa entre as diretrizes formais e a realidade clínica. Estes casos demonstram como o estigma impede a divulgação por parte dos pacientes, complicando o processo de diagnóstico e tratamento. Em ambas as situações, a identidade de eunuco foi “deduzida” pelo clínico, e não explicitamente declarada pelo paciente.
- Caso 1: O jovem de 19 anos Um jovem procurou obter estrogénio e outros fármacos online. Na avaliação clínica, o Dr. Irwig percebeu que o seu objetivo não era a feminização (não desejava desenvolver seios), mas sim atingir um estado pré-púbere através da supressão da testosterona. Com base neste perfil, o clínico deduziu que o paciente se enquadrava na população de eunucos.
- Caso 2: O homem de 40 anos Um homem que se havia automutilado para induzir a remoção cirúrgica dos testículos foi encaminhado com uma carta de um terapeuta que o diagnosticava incorretamente como mulher transgénero. O paciente não manifestava interesse na feminização. A sua história apenas foi descoberta através da análise de registos médicos anteriores, e, quando confrontado com a informação, a sua reação foi de profunda vergonha.
A reação deste segundo paciente ilustra a intensidade do estigma associado:
“…ele estava tão envergonhado. Ele estava tipo, sabe, eu realmente não quero falar sobre isso.”
Este estigma serve de pano de fundo para o debate que se seguiu, no qual os profissionais presentes expressaram as suas próprias controvérsias e preocupações éticas.
6. Receção Profissional, Controvérsias e Questões Éticas
A sessão de Perguntas e Respostas funcionou como um barómetro das tensões dentro da comunidade médica e cirúrgica. As intervenções do público revelaram pontos de discórdia significativos relativamente à linguagem, ao enquadramento histórico e às implicações práticas das novas diretrizes.
- Linguagem e Enquadramento Histórico Uma participante declarou-se “horrorizada” com o uso do termo “castração” e com a comparação histórica à mutilação de pessoas escravizadas, argumentando que se tratava de “mutilação genital” e não de uma escolha.
- Diferenciação de Subgrupos Christine Wheeler, membro fundadora da WPATH, questionou se os castrati faziam parte da amostra de estudo. Johnson respondeu que existem documentos históricos que atestam que alguns rapazes procuraram voluntariamente a castração para esse fim.
- Acesso Cirúrgico e Aceitação Profissional O Dr. Thomas Satterwhite, cirurgião plástico, levantou a questão de como “ter mais cirurgiões a bordo”. O Dr. Irwig respondeu que a inclusão do capítulo na SOC8 oferece uma legitimação que pode mitigar os receios dos médicos de serem vistos como marginais (“rogue”) ou de enfrentarem consequências profissionais.
- Diagnóstico Diferencial e Parafilias Um participante de França questionou sobre a gestão de casos com “parafilia masoquista aguda” e historial de automutilação. O Dr. Irwig enfatizou a necessidade de uma abordagem multidisciplinar com profissionais de saúde mental qualificados para navegar cenários clínicos complexos.
7. Conclusão: Implicações da Formalização da Identidade de Eunuco
A inclusão da identidade de eunuco na SOC8 representa um esforço para aumentar a visibilidade e fornecer um caminho para cuidados seguros a uma população marginalizada. A formalização da “Disforia de Género de Masculino para Eunuco” constitui uma expansão do entendimento sobre a diversidade de género, desafiando os profissionais de saúde a adaptarem as suas práticas.
Contudo, a sessão também expôs os pontos de tensão centrais que irão definir o debate futuro. Estes incluem o conflito entre a legitimação de uma identidade de género e as preocupações com a linguagem (“castração”), a ética médica em torno de procedimentos irreversíveis e a necessidade crítica de um diagnóstico diferencial rigoroso face a condições psiquiátricas complexas. A clara distinção entre a disforia de género de masculino para eunuco e as parafilias, que estão fora do âmbito da SOC8, exige uma abordagem clínica de elevada competência.
Consequentemente, a aplicação destas diretrizes exigirá que os profissionais naveguem a complexa fronteira entre a afirmação de uma identidade de género recém-formalizada e a responsabilidade clínica de diagnosticar e tratar condições psiquiátricas graves, um desafio que definirá a próxima fase da ética nos cuidados de saúde para pessoas com diversidade de género.
Fonte: https://wesleyyang.substack.com/p/of-eunuchs-and-wannabes
Transcrição e áudio do simpósio da WPATH sobre identidade “eunuco” em 23 de setembro de 2022
Lígia Albuquerque e Castro
27-12-2025