
Por Marisa Antunes
Adoro cantar, principalmente no carro. 99% da cultura musical dos anos 80 absorvida pelos meus filhos, fui eu que lhes transmiti nas aventuras de férias enquanto nos deslocávamos de carro (do pai, só o Sérgio Godinho😃). E assim, mal conquistei tempo para mim, inscrevi-me num coro divertido, metade dele feito de pessoas de vários pontos do mundo e que vivem em Lisboa, logo, toda a comunicação entre nós, é feita em inglês.
No Natal passado, em pleno época de ‘concertos’ (é um grupo amador, mas muito ativo🥳), o nosso querido e talentoso maestro, um tipo jovem e astuto, apareceu-nos com uma ajudante, uma miúda, de olhar triste, com corte à Sinead O’Connor e roupas largas à rapaz. Logo no primeiro ensaio, assim que abriu a boca, a miúda, encantou toda a gente. Sabem aquelas vozes puras, cristalinas, uma em um milhão, daquelas que nos fazem arrepiar e soltar um ‘uau’? É assim a voz dela. Por isso, nesse dia, no pós-primeiro ensaio, no grupo de whatsapp, não se falava de outra coisa e choveram dezenas e dezenas de comentários (sim, somos mesmo muitos).
Como estávamos todos a usar os pronomes femininos, a pessoa que administra o grupo, alertou-nos que a jovem se “identificava como um rapaz” por isso ela era um “he” e não, não era “her beautiful voice“, mas “his beautiful voice“… Pois… A quente (tenho esse defeito), reagi, escrevendo que estava a torcer para que ela não seguisse para a transição hormonal pois a sua voz única ficaria totalmente arruinada e também o seu futuro na área musical (ela está a terminar o curso superior nessa área). Seguiu-se um pequeno debate no whatsapp sobre o tema, criei anti-corpos, mas também apoiantes discretos, o habitual.
Nos meses seguintes, a miúda manteve-se connosco. O jovem e astuto maestro assoberbou-a em trabalho bom (é responsável por muitos coros), deixando-a, certamente, pouco tempo para mergulhar em tretas ideológicas. E a miúda foi recuperando gradualmente o sorriso, a sua luz interior e os toques de feminilidade. Foi um processo bonito de se acompanhar em cada semana de ensaios. Começou pelo cabelo, que deixou crescer, depois brincos e muitas pulseiras e, por fim, vestuário e calçado obviamente feminino.
Como os intelectualóides armados em progressistas insistiam em não ler nas entrelinhas, a miúda acabou por colar ao nome neutro que já constava no whatsapp, um outro, inquestionavelmente feminino. Mas nem assim.. Os intelectualóides progressistas continuam a tratá-la como um rapaz e é tão visível, mas tão visível, que ela se ensombra outra vez, nesses momentos… Enfim.. Isto tudo para dar um exemplo da pressão a que se sujeitam os detrans* (que são maioritariamente jovens) e dizer que nada na atual lei faz sentido. Corrigir um erro grosseiro, que lesa jovens vidas, não é retrocesso, é Humanidade. Não é regressão, é travar interesses dúbios. É proteger as minorias LGB, vítimas do lobby trans onde se integra a Opus. Portanto, não tenhamos medo de fazer História.
O meu (Maria Helena Costa) comentário ao post da jornalista Marisa Antunes:
O que mais impressiona é o mecanismo de pressão social que relataste: primeiro a exigência dos pronomes (‘he’), depois o silêncio cúmplice quando a rapariga começa a recuperar a sua feminilidade natural (cabelo, brincos, roupas, nome). Os mesmos que gritam ‘afirmação’ são os que não suportam ver uma jovem desistir da narrativa trans e voltar a identificar-se com o seu corpo de mulher. Isso não é apoio, é controlo ideológico.
A voz cristalina dessa miúda é um lembrete brutal do que se perde com a testosterona: não é só timbre, é todo um potencial artístico e biológico. E quantas outras vozes, corpos e futuros estão a ser destruídos em nome de uma ‘identidade’ que, na prática, exige a mutilação do sexo?
Os dados de detransição (principalmente raparigas autistas, com trauma, TDAH ou simplesmente pouco tempo de maturação) estão a acumular-se. Ignorá-los não é compaixão, é fanatismo.