Média e médicos transactivistas com patrocínios farmacêuticos

A afirmação imediata de género apresenta-se hoje como um negócio lucrativo que resulta no sacrifício das crianças. O Expresso, do Grupo Impresa, mantém uma parceria recorrente e assumida com a AbbVie — uma das grandes farmacêuticas multinacionais —, figurando como media partner da Conferência “Sustentabilidade em Saúde” (que conta já com a 14.ª edição em 2026). Esta relação gera conteúdos editoriais, podcasts e cobertura promocional precisamente na área da saúde. Ao mesmo tempo, o jornal publica entrevistas e reportagens que promovem o modelo afirmativo de género (afirmação imediata associada à medicalização precoce), enquadrando qualquer crítica como “desumanizante”. Trata-se de uma apologia em causa própria: um órgão de comunicação social que depende financeiramente da indústria que lucra com bloqueadores de puberdade, hormonas cruzadas e intervenções cirúrgicas não pode ser neutro no debate sobre a medicalização de crianças e adolescentes.

Esta não é uma parceria pontual. O Grupo Impresa tem vindo a reforçar, ao longo dos anos, as suas operações de marketing com várias farmacêuticas, utilizando as suas plataformas para eventos pagos e conteúdos patrocinados. Num tema tão sensível como a disforia de género — em que os produtos promovidos pela WPATH geram receitas vitalícias para a indústria —, o conflito de interesses é evidente e grave.

Num podcast recente do Expresso, André Ribeirinho Marques defendeu que o debate público sobre a vida de pessoas trans é desumanizante, seguindo religiosamente o protocolo holandês e as directrizes da WPATH. Esta posição, apresentada como compassiva e baseada em evidência científica, esconde falácias graves, conflitos de interesses e riscos documentados para os menores.

A falácia da “evidência sólida” e o colapso do protocolo holandês

O protocolo holandês, originado num pequeno estudo dos anos 90 com crianças altamente seleccionadas, serviu de base para a actual medicalização em massa. Os estudos fundadores revelam limitações graves: ausência de um grupo de controlo adequado, follow-up insuficiente e resultados modestos. A Cass Review (2024), as revisões do NICE e as decisões tomadas por vários países europeus (Reino Unido, Suécia, Finlândia, Noruega e Dinamarca) concluíram que a evidência sobre o uso de bloqueadores e hormonas em menores é de qualidade muito baixa. Estes tratamentos não reduzem de forma fiável a disforia nem melhoram a saúde mental a longo prazo; em contrapartida, expõem os jovens a riscos de esterilidade, perda de função sexual, problemas ósseos e arrependimento.

A explosão actual de casos — sobretudo em raparigas adolescentes sem qualquer historial na infância — nada tem a ver com o modelo holandês original. Ainda assim, a WPATH ignora ou minimiza estas revisões independentes.

O fenómeno do contágio social (ROGD) e a negação da realidade

O aumento explosivo de casos sugere a existência de contágio social (Rapid Onset Gender Dysphoria), com agregados de casos (clusters) em redes sociais, escolhas e grupos de pares. A presença de comorbilidades elevadas (autismo, trauma, depressão, ansiedade e problemas de imagem corporal) constitui a regra e não a excepção. Em vez de uma terapia exploratória cuidadosa que investigue as causas subjacentes, o modelo “afirmativo” diagnostica e medicaliza de imediato.

As crianças e os adolescentes não dispõem da maturidade cognitiva necessária para consentir em decisões irreversíveis, lembrando que o cérebro humano se desenvolve até aos 25 anos.

Conflito de interesses: quem ganha com o aumento de casos?

As clínicas, os terapeutas e a própria indústria farmacêutica têm incentivos financeiros claros com o crescimento deste “mercado”. Mais diagnósticos traduzem-se em mais consultas, hormonas vitalícias e cirurgias. O profissional de saúde que segue a WPATH e o meio de comunicação que o acolhe sem escrutínio representam este ecossistema. Negar este conflito é de uma enorme ingenuidade.

Comparar as críticas científicas e éticas feitas a este modelo com uma “falta de dignidade” não passa de retórica que visa silenciar o debate. Questionar a medicalização experimental de menores não é ódio: é a defesa da integridade corporal, da evidência científica e da salvaguarda (safeguarding) infantil. Os adultos com disforia persistente merecem respeito e cuidados regulados. As crianças, por sua vez, não são cobaias para agendas ideológicas ou lucros comerciais.

Portugal deve seguir o exemplo da Cass Review: aplicar avaliações holísticas, proibir a medicalização rotineira em menores, priorizar a terapia exploratória e criar registos de resultados (outcomes). As vidas das crianças não podem ser moeda de troca para parcerias comerciais nem para radicalismos ideológicos. A dignidade verdadeira protege os mais vulneráveis da iatrogenia.