
É cada vez mais raro as pessoas expressarem publicamente a sua inquietação face ao incentivo e ao activismo que pretendem convencer as crianças de que não existe roupa de mulher nem roupa de homem, e de que cada um veste o que quer. Este silêncio decorre, precisamente, do medo de serem acusadas de “intolerância” ou “preconceito”. Por isso, vale a pena analisar a imagem que se tornou viral nas redes sociais sobre uma marcha dos Santos Populares: um homem (músico) vestido de mulher e uma mulher (actriz) vestida de homem como padrinhos de uma marcha infantil.
Do meu ponto de vista, não se trata de um simples “jogo de papéis” inocente ou de uma tradição carnavalesca neutra. É a encenação pública, perante crianças pequenas, da ideia de que o sexo biológico é acessório, mutável ou uma mera “performance”. Esta mensagem não surge no vazio: faz parte de um padrão mais amplo de institucionalização da teoria queer e da ideologia de género nas actividades destinadas a menores.
Pontos centrais de crítica
- As crianças não são uma tabula rasa ideológica: O desenvolvimento cognitivo infantil (estudado por Piaget, mas também corroborado por evidência mais recente da psicologia evolutiva) mostra que, até aos 7 ou 8 anos, a maioria das crianças ainda está a consolidar a compreensão estável do sexo biológico como uma categoria imutável. Introduzir precocemente a ideia de que “o género é um espectáculo” ou que se pode “trocar” gera confusão em vez de libertação. Estudos como o Cass Review (Reino Unido, 2024) e relatórios da Sociedade Sueca de Psiquiatria Infantil demonstram que a exposição acelerada a estes conceitos está associada a um aumento exponencial de referenciações por disforia de género — sobretudo em adolescentes do sexo feminino —, sem que exista evidência sólida de que a “afirmação social precoce” melhore os resultados a longo prazo. Pelo contrário, vários estudos de acompanhamento (follow-up, como os das coortes de longo prazo suecas e holandesas) revelam taxas elevadas de comorbilidades psiquiátricas, autismo, trauma e de cessação natural (desistance), demonstrando que 80% a 90% dos casos pré-pubertários se resolvem sem transição.
- Normalização vs. debate: O problema não reside na existência de adultos cross-dressers ou de pessoas com disforia, uma vez que os adultos têm pleno direito à sua vida privada. O problema é a militarização pedagógica deste tema. Quando se introduz esta encenação como “diversidade” numa marcha infantil, elimina-se o debate: transforma-se o assunto numa norma moral a ser internalizada, e não numa hipótese a ser discutida. Os pais são remetidos para a posição de “retrógrados” se ousarem questionar. Isto inverte as responsabilidades: cabe aos adultos proteger o espaço de desenvolvimento da criança, e não utilizá-lo como palco de activismo.
- O duplo critério: Se estivéssemos perante uma marcha religiosa tradicional com figuras conservadoras, muitos dos actuais promotores clamariam por “separação entre a Igreja e o Estado” e denunciariam a “endoutrinação”. Aqui, contudo, a ideologia de género recebe o estatuto de neutralidade moral. Mas não é neutra. Trata-se de uma visão metafísica específica (o corpo visto como matéria-prima para a identidade subjectiva) que substitui o materialismo biológico e o feminismo baseado no sexo pela autorreferencialidade.
- O papel dos pais: É legítimo e fundamental questionar. Muitos pais, por desconhecimento, receio do estigma social ou captura institucional (por parte de escolas, autarquias e ONG financiadas), alinham na tendência. Outros limitam-se a evitar conflitos. No entanto, os dados dos países onde houve maior experimentação (Canadá, Escócia e algumas regiões dos EUA) mostram que a “afirmação social” precoce se correlaciona com uma maior persistência da disforia e com a consequente medicalização posterior. Os pais que hesitam não são paranoicos; estão a exercer uma cautela evolutiva normal.
Conclusão
Não se trata de proibir o teatro, a pantomima ou o humor (o travestismo cénico existe há séculos sem necessidade de doutrinas). Trata-se, sim, de distinguir claramente entre:
- Adultos que fazem o que entendem com o seu próprio corpo;
- A exposição sistemática e precoce de crianças a uma ontologia contestada (sexo ≠ género como identidade sentida), apresentada como um facto incontestável.
A marcha da Voz do Operário é apenas um exemplo. O fenómeno é vasto e engloba manuais escolares, acções de formação de professores, “semanas da diversidade”, drag queen story hours, entre outros. Uma sociedade séria discute as consequências antes de normalizar as práticas. A sociedade actual não debate — limita-se a estigmatizar quem faz perguntas.
Por isso, a rejeição da imposição da agenda LGBTQIA+ é legítima. Não se trata de ódio, mas sim de responsabilidade parental e de protecção da infância. O debate não desapareceu pelo simples facto de lhe chamarem “ódio”. Continua a ser urgente.