
Publicado no Observador
Num mundo onde a saúde mental dos jovens é cada vez mais prioritária, surge uma pergunta incómoda: será que algumas abordagens terapêuticas, feitas com as melhores intenções, podem estar a contribuir para o afastamento entre pais e filhos?
Recentemente, circulou nas redes sociais um vídeo no qual um profissional questiona as práticas comuns em sessões conduzidas por psicólogos especializados em abordagens afirmativas LGBTQIA+. A essência do que se ouviu pode resumir-se em interrogações como estas:
- O que acontece quando um jovem procura, sozinho, esses serviços e começa a reconstruir a sua história familiar apenas com base no que é explorado nessas sessões?
- Será que a ausência dos pais nessas conversas pode levar a uma narrativa unilateral, na qual o jovem recebe validação para reinterpretar relações passadas de forma a culpar ou a afastar-se dos próprios pais?
Não se trata de pôr em causa o apoio necessário a quem se questiona sobre identidade ou orientação. Trata-se de questionar o método: como o orador no vídeo alertou, será possível que, em nome da “afirmação”, se crie ou amplifique uma história em que os pais são vistos como o problema principal, sem que estes tenham oportunidade de participar, esclarecer ou contextualizar?
Esta realidade ganha contornos mais complexos quando analisamos o panorama institucional em Portugal. A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) tem demonstrado um claro alinhamento com a narrativa trans e com as intervenções afirmativas de género em crianças, o que a coloca em sintonia com as políticas identitárias promovidas e defendidas pela esquerda política. Este posicionamento reflecte-se na própria postura de vários psicólogos inscritos na Ordem, que exibem publicamente nas suas redes sociais pronomes que não correspondem ao seu sexo biológico, acompanhados por bandeiras LGBT e trans nos seus perfis profissionais.
Em contrapartida, assiste-se em Portugal a um cenário de aparente perseguição interna. Psicólogos de referência que recusam submeter-se à ideologia de género — como a Dr.ª Maria José Vilaça, o Dr. Abel Matos Santos ou a Dr.ª Joana Amaral Dias — têm enfrentado processos disciplinares e pressões por parte da própria Ordem por não se ajoelharem perante estas directrizes.
As repercussões desta mundividência clínica fazem-se sentir directamente na intimidade dos lares. É impossível não pensar em tantos pais que, de um dia para o outro, se confrontam com uma versão dos factos que mal reconhecem. Pais que sempre amaram, cuidaram e educaram da melhor forma que sabiam, e que agora se vêem descritos como figuras tóxicas ou rejeitadoras numa narrativa construída longe deles. Será que isso pode cristalizar uma percepção de rejeição ou culpa que, na realidade, não corresponde à intenção ou às acções concretas deles ao longo dos anos?
O equilíbrio é delicado. Por um lado, é fundamental que o jovem se sinta acolhido e amado nas suas lutas internas. Por outro, será que a terapia não deveria, sempre que possível e quando o jovem o desejar, incluir o contexto familiar completo? Será que excluir sistematicamente os pais não cria, involuntariamente, uma bolha onde só uma versão prevalece?
Outro ponto que o debate levanta prende-se com o impacto na dinâmica familiar quando um filho constrói a sua identidade e narrativa através de um apoio externo que exclui o diálogo com a família de origem. Será que isso fortalece o jovem a longo prazo, ou prepara o terreno para rupturas desnecessárias e dolorosas para ambas as partes?
Não defendo respostas fáceis nem generalizações. Cada caso é único e merece escuta profunda. Mas vale a pena reflectir: será que uma boa prática terapêutica não deveria, pelo menos, incentivar o jovem a considerar múltiplas perspectivas, incluindo a dos pais, antes de solidificar uma história que pode danificar irreparavelmente laços que, na maioria das famílias, foram construídos com amor imperfeito, mas genuíno?
Os pais não são perfeitos. Ninguém o é. Mas serem sistematicamente excluídos da conversa sobre a própria história familiar levanta questões éticas e humanas importantes. Como o vídeo pareceu sugerir, talvez seja tempo de perguntar se a “afirmação” a todo o custo está, por vezes, a custar a coesão familiar.
E a si, leitor, o que lhe parece? Será que vale a pena abrir o diálogo entre terapeutas, jovens e famílias, em vez de assumir que só uma voz institucionalizada deve ser ouvida? O futuro das relações familiares pode depender de como respondemos a estas perguntas.