
Hoje, assistimos a um paradoxo inquietante na forma como tratamos as crianças. Por um lado, infantilizamo-las em tarefas básicas da vida: livros e cursos para ensinar bebés a usar o bacio, como se a maternidade e a paternidade fossem ciências complexas acessíveis apenas a especialistas. Por outro, adultizamo-las prematuramente noutras áreas, muitas vezes de natureza sexual, expondo-as a conteúdos e ideologias que roubam a inocência e distorcem o desígnio de Deus para a infância. Teóricos sem filhos multiplicam-se, vendendo métodos e “expertises” que substituem a sabedoria bíblica e a experiência prática dos pais. O resultado é uma geração cada vez mais dependente em algumas dimensões e exposta demais noutras.
A Escritura apresenta um caminho muito diferente. Os filhos não são projectos pessoais a serem optimizados por técnicas modernas, mas herança do Senhor (Salmo 127:3). São dádiva de Deus no contexto da aliança familiar, confiados aos pais para serem criados “na disciplina e na admoestação do Senhor” (Efésios 6:4). A responsabilidade parental é directa, solene e não delegável a “especialistas” que muitas vezes ignoram a realidade concreta da vida quotidiana.
A Bíblia não romantiza a infância como um período de lazer perpétuo e protecção excessiva. Pelo contrário, valoriza o trabalho, a responsabilidade e o contributo gradual da criança para o bem da família e da comunidade. Provérbios está cheio de exortações à diligência: “O que trabalha com mão negligente empobrece, mas a mão dos diligentes enriquece” (Provérbios 10:4). A criança que, aos sete anos, varre a casa, ajuda na horta, cuida dos animais, faz recados e vai à escola sozinha não está a ser explorada — está a ser formada no carácter cristão. Está a aprender que a vida tem propósito, que o trabalho é bom (Génesis 2:15), que a família funciona como unidade e que a dependência excessiva é contrária à maturidade que Deus deseja.
A infantilização actual revela uma antropologia falha: a criança vista como ser frágil, incapaz e eternamente dependente, que precisa de intervenção técnica constante. Esta ideia de que se deve consultar um psicólogo sempre que a criança parece não corresponder às nossas expectativas também acaba por infantilizar e desautorizar os pais. Chega-se ao cúmulo de os pais pensarem que não são capazes de educar e de compreender os próprios filhos por não serem educadores, professores, psicólogos ou técnicos de educação (seja lá o que isso for). Isto contrasta com a visão cristã da imagem de Deus no homem — mesmo na criança. O ser humano, desde pequeno, possui dignidade, capacidade de aprender, responsabilidade moral e vocação para glorificar a Deus. Protegê-lo do perigo real é bíblico; isolá-lo de toda a responsabilidade prática é idolatrar a segurança e desconfiar da providência soberana de Deus.
O cenário torna-se ainda mais grave neste duplo padrão: paradoxalmente, enquanto se mantém a criança num estado de lazer perpétuo e protecção excessiva para as coisas básicas, os ‘gurus’ da educação moderna exigem que saiba tudo sobre sexo. Esta adultização precoce é de uma gravidade extrema, pois expõe a infância ao que Deus reserva para o casamento (Génesis 2:24; Hebreus 13:4), violando a pureza e a ordem da criação. Jesus adverte severamente contra escandalizar os pequeninos: «Melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho e fosse lançado no mar» (Marcos 9:42). A cultura actual faz exactamente o oposto do que Deuteronómio 6 ordena: em vez de ensinar diligentemente os mandamentos de Deus aos filhos no caminho, ao deitar e ao levantar, entrega-os a influências que os formam segundo o mundo.
A solução não está em regressar romanticamente ao passado rural (embora haja sabedoria nele), mas em recuperar princípios bíblicos intemporais:
- Os pais como principais educadores: A igreja e a comunidade podem auxiliar, mas a responsabilidade primária é dos pais (Deuteronómio 6:6-9).
- Formação do carácter através do trabalho: Responsabilidade adequada à idade, em vez de entretenimento passivo.
- Protecção da inocência: Sem isolamento do mundo real.
- Confiança na graça soberana de Deus: Em vez de um medo paralisante que leva à superprotecção ou à terceirização da educação.
- Sabedoria comunitária das gerações mais velhas: Especialmente das mães e avós que criaram filhos sem «manuais de bacio».
Como cristã, creio que a família é uma das esferas de soberania instituídas por Deus. Contudo, a urgência deste alerta ultrapassa as fronteiras da fé. Mesmo aqueles que não partilham da minha teologia — mas que se reconhecem como herdeiros e defensores dos valores morais da civilização ocidental — compreendem o perigo iminente. Quer nos curvemos perante o Criador, quer guiemos a nossa visão pelo bom senso histórico e pela lei natural, a conclusão é a mesma: quando abdicamos da família a favor de «especialistas» ou da engenharia social da cultura moderna, estamos a render-nos a ídolos perigosos. Sacrificamos a autonomia dos pais no altar da expertise técnica, da segurança absoluta e do individualismo hedonista.
Que o Senhor nos dê sabedoria para criar os nossos filhos não segundo os padrões deste século, mas segundo a Verdade que permanece. E que esta causa una também todos os homens e mulheres de boa vontade, agnósticos ou crentes, que recusam ver a infância destruída. Que as novas gerações cresçam em sabedoria, em estatura e em dignidade, preparadas para enfrentar o futuro como adultos responsáveis, autênticos e livres — e não como eternos adolescentes dependentes do Estado ou como vítimas prematuramente endurecidas pelo mundo.
Que as mães e os pais, crentes na providência ou firmes na tradição, continuem a testemunhar com bom senso contra as modas passageiras. A criação de filhos não é uma ciência complicada para doutores, nem um monopólio de burocratas da educação — é um chamado sagrado à transmissão da vida e do carácter, sustentado pela própria ordem da criação.