O que vão dizer de mim por deixar uma carreira tão boa aos olhos de todos?

Escolhi ser mãe « Jovens Conectados

Somos uma família de quatro pessoas: eu, o meu marido e os nossos dois filhos, a Inês com 15 anos de idade e o Filipe com 13 anos. Uma família como tantas outras, mas que procura viver uma vida cristã agradável a Deus. O breve testemunho que vou escrever diz respeito aos últimos 3 anos, por ser o período de uma das etapas mais marcantes na minha vida cristã e na minha família.

Orar, ler a Palavra de Deus com um enorme desejo de aprender e de a pôr em prática na nossa vida (Tiago 1:22) e o Espírito Santo de Deus trabalhando nas nossas vidas, tem sido o grande segredo da nossa comunhão familiar e o pilar da nossa vida espiritual.

Recordo-me claramente que desde que começámos a orar mais, a ler a Bíblia e a aplicá-la à nossa vida e, mais tarde, a fazer o culto no lar – uns momentos de oração e estudo sequencial da Palavra de Deus (lemos juntos livros inteiros da Bíblia – um capítulo ou uma parte dele em cada reunião familiar) três vezes por semana, começámos a ver na nossa vida familiar uma grande mudança.

Nessa altura, a Inês tinha 12 anos e o interesse dela pela Palavra de Deus e a sua participação no estudo bíblico aumentou muito. No ano seguinte, ela começou a fazer o seu plano de leitura da Bíblia (para 2 anos) e a diferença nela foi notória. Como qualquer adolescente, ela tem passado pelas circunstâncias e situações próprias da sua idade e temos visto como o conhecimento da Palavra de Deus tem sido tão importante na vida dela!

O nosso papel insubstituível

Gostaria de parar aqui um pouco para falar de um aspecto para mim muito relevante, que é o nosso papel insubstituível de ensinar a Palavra de Deus aos nossos filhos, tanto mais quanto vemos hoje tantas tentativas de descredibilizar a Palavra de Deus.

Ensinar os nossos filhos a obedecer a Deus é uma responsabilidade que Ele nos confiou e que temos procurado levar a sério de acordo com Deuteronómio 6:5-7: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as intimarás aos teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te.” O meu filho Filipe é um adolescente com necessidades especiais e ele, por natureza, é do Senhor, embora lhe ensinemos também a Palavra de Deus, dentro da sua capacidade de compreensão; ele gosta de ler a Bíblia e também de cantar os cânticos de louvor a Deus que temos aprendido juntos.

A minha filha Inês está a crescer e eu não vou poder fazer as escolhas por ela no futuro. Há uma responsabilidade pessoal dela com Deus e com o Seu plano de salvação. A salvação não é automática, mesmo tendo cumprido com a responsabilidade de ensinar os nossos filhos nos caminhos do Senhor. Mas o ensino transmitido ao longo dos anos ficará com ela para sempre e estamos certos que a probabilidade de escolher mal diminui consideravelmente e nós, pais, obedecemos ao mandado do Senhor e fizemos o que devia ser feito.

A importância do exemplo que lhe dou com a minha vida

No relacionamento diário com a minha filha, tenho-me apercebido da importância do exemplo que lhe dou com a minha vida, porque ela me observava (e observa) em tudo. Muitas vezes eu parei a pensar nisto: se o que eu faço não for coincidente com o que eu lhe estou a ensinar da Palavra de Deus, vai ser um prejuízo muito grande, porque ela não vai ver em mim aquilo que eu digo para ela fazer (se eu digo para ela ler a Bíblia e eu não leio, se eu digo para ela não ser indelicada e ela me vê ser indelicada com ela ou com outras pessoas), vou causar um grande prejuízo nela, porque ela não vai levar a sério nem a mim nem a Deus e a Sua Palavra.

Claro que não somos perfeitas e que não existe perfeição mesmo dentro de uma família temente ao Senhor. Mas, quando falho com a minha filha tenho procurado assumir a minha falha perante ela, pedir-lhe desculpa e pedir perdão a Deus. Isto é muito importante porque os nossos filhos, particularmente os adolescentes e os jovens, têm um sentido de justiça muito próprio desta idade e são muito bons a detectar a hipocrisia e a duplicidade nas pessoas. Esta tem sido uma das minhas grandes preocupações no relacionamento com a minha filha a par com o amor e o respeito entre nós dentro de casa e com outro grande mandamento do Senhor, que é o temor ao Senhor, isto é, levar a sério, considerar, aquilo que Deus diz e a Sua Palavra.

O resultado do nosso empenho no ensino da Palavra de Deus e de demonstração de carinho, do amor de Deus e da seriedade das coisas de Deus, não acontece de um dia para o outro. É construído, todos os dias …numa conversa, numa atitude…é feito com os detalhes da vida! Mas se formos perseverantes vai dar o seu fruto para a glória de Deus!

Dedicar mais do meu tempo à família e aos cuidados que a mesma exigia

Fui Técnica Superior na Função Pública, do quadro dos Conservadores do Instituto dos Registos e do Notariado, por mais de uma década. Estou grata a Deus por todo o tempo em que exerci a minha função e por todos os livramentos que me deu. No ano de 2013, comecei a colocar a possibilidade de passar a dedicar substancialmente mais do meu tempo à família e aos cuidados que a mesma exigia. Agradeço a Deus por esta nova fase da minha vida presente pois, afinal, “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.” (Eclesiastes 3:1) Tudo o que fizemos foi: avaliar se financeiramente essa possibilidade era viável para nós, orar sobre este assunto o tempo que fosse necessário, leitura e estudo da Palavra de Deus sobre esta questão em concreto (o que a Palavra ensinava sobre essa possibilidade e sobre o papel do marido e da esposa no lar e a sua importância). O convencimento do Espírito Santo e as circunstâncias da altura, apontaram o caminho para a decisão diante de Deus, de cessar a actividade profissional que vinha exercendo.

De vez em quando, surgiam as perguntas: O que vão dizer de mim por deixar uma carreira tão boa aos olhos de todos – a família, os amigos, as pessoas que me conheciam…? Porém, não me deixei vencer pelo (mau) sentimento da “aprovação dos homens” (Gálatas 1:10) que muitas vezes nos tolda o entendimento.

A melhor escolha

Olhando para o que ficou para trás e atentando bem para o que tem estado diante dos meus olhos, esta foi a melhor escolha e, dito por várias pessoas que me acompanharam durante muito tempo, foram estas algumas das palavras que ouvi: – “Fizeste muito bem!”, “Foi uma boa escolha!” ou ainda “Às vezes as pessoas gastam mais dinheiro nas suas compras porque as fazem em stress, com a vida numa correria constante, do que aquelas que, por terem uma vida mais equilibrada e tranquila, acabam por fazer melhores escolhas nas compras e gastar muito menos conseguindo assim viver com menos dinheiro”.

A minha família tem compreendido a importância da minha escolha pelo testemunho de uma família coesa e unida e isso para mim é o suficiente! A minha querida e preocupada mãe, por diversas vezes tenta saber, discretamente, se eu estou bem, se estou a precisar de alguma coisa, e a resposta tem sido sempre, para a glória do Senhor: “Está tudo bem, não preciso de nada!”. Tenho aprendido, na prática da vida, o significado tão profundo e com tantos benefícios para nós, contidos nas palavras do Apóstolo Paulo, inspirado pelo Espírito Santo: “sei estar abatido, e sei também ter abundância …” (Filipenses 4:12).

Sou feliz

Viver com contentamento é uma bênção muito grande. Sou feliz com aquilo que eu posso ter e não com o que eu gostaria ou poderia ter noutras circunstâncias. É uma verdadeira libertação da dependência dos bens materiais para além do necessário e da necessidade da aprovação das pessoas que nos rodeiam. Aprendi que o melhor para mim é aquilo que é conveniente para mim segundo Deus e não segundo o meu desejo ou os valores da sociedade em que vivo.

Teria sido perfeitamente lícito continuar na minha carreira com um rendimento mensal muito confortável. Mas se ali continuasse, eu entendo hoje, teria sido egoísmo da minha parte perante as necessidades da minha família, principalmente dos meus filhos. A minha actividade profissional, a partir de certo momento, em vez de me aproximar de Deus e da família, começava a afastar-me deles. Há circunstâncias em que conciliar tudo já não é possível sem perdas substanciais em alguma das áreas e, normalmente, a comunhão com Deus e a família são as mais afectadas.

Acompanhar de perto a minha filha

Quando houve condições para optar por dedicar mais tempo à família, os efeitos começaram logo a ver-se. Naturalmente, a situação do Filipe foi uma circunstância que reforçou a tomada de decisão, mas temos visto claramente que todos nós beneficiámos muito com esta mudança e o benefício incomparavelmente maior tem sido poder acompanhar de perto a minha filha, na escola e na igreja.

Na igreja? Sim. Infelizmente, quantos adolescentes e jovens estão sentados na igreja assistindo ao culto, mas não têm evidências de uma conversão genuína e não são referência para outros adolescentes e jovens, porque o seu padrão de escolhas e de comportamento aproxima-se mais do padrão deste mundo do que do padrão bíblico?

É difícil para nós e para os nossos filhos quando eles se apercebem disso. E, mais uma vez, como é muito importante a proximidade com os nossos filhos, lembro-me de Deuteronómio 6:5-7 como um dos textos da Palavra de Deus que nós mais procuramos por em prática com eles.

E na escola? Todos sabemos como está a situação dos valores entre os adolescentes e os jovens. Num destes dias, a minha filha estava ansiosa, desmotivada para fazer as coisas, queria estar sozinha, respondia com tensão interior e irritada… Comecei a “puxar” por ela para que me dissesse o que se passava e ela começou a chorar… Não queria falar. Ao fim de algum tempo, ela foi dizendo que as colegas na escola a confrontaram com as questões da homossexualidade. Argumentaram com ela e ela sentiu dificuldade porque elas não paravam de argumentar. Para além disto, acusaram-na de ser homofóbica e preconceituosa.

Isto começou a entristecê-la profundamente e ela não se apercebeu que precisava de pedir ajuda. O problema foi aumentando cada vez mais e a confusão a querer tomar conta da mente dela.

Começou a ficar com a ideia de que não valia a pena dizer nada porque, mesmo orando e lendo a Bíblia, a atitude dos colegas não ia mudar (no fundo a minha filha queria que aquela perseguição — porque é disto que se trata – acabasse logo) e foi necessário lembrar-lhe o ensino e reforçar o que ela já sabia (novamente me lembro de Deuteronómio 6:5-7). Explicamos-lhe que, muitas vezes, os problemas que nos afligem vão servir para nos tornar mais fortes. O mais importante neste momento não é as colegas mudarem a atitude delas (que não podemos controlar isso) mas ver o que a Bíblia diz sobre isso e confiar na Palavra de Deus, pedindo a Deus ajuda para lidar com esta situação. Graças a Deus, o ânimo voltou ao seu coração, não por causa das nossas palavras, mas sim porque é a Palavra de Deus.

Imprescindível acompanhar, conversar, esclarecer

Nos dias que se têm seguido, tem sido imprescindível acompanhar, conversar, esclarecer. Já me tenho perguntado a mim mesma e comentado também com o meu marido: como é que a nossa filha nos iria ouvir hoje e confiar em nós para se abrir, se antes não tivéssemos passado o tempo que passámos com ela incutindo-lhe os valores da Palavra de Deus? Como é que ela ia lidar com esta situação que está aí diante dos nossos olhos todos os dias, sem a Palavra de Deus no coração e sem confiança em nós para pedir ajuda? Não consigo imaginar.

De uma coisa tenho a certeza: o nosso relacionamento e a nossa capacidade de lhe incutir os valores da Palavra de Deus não seriam iguais. Por esta razão, e por experiência própria, eu digo sem dúvida nenhuma, que, se for possível a mãe, esposa, ficar com tempo para acompanhar a vida da família e do lar, esta é a melhor escolha, ainda que o nível de vida tenha de baixar. A Palavra de Deus diz em Provérbios 15:16 que “Melhor é o pouco, havendo o temor do SENHOR, do que grande tesouro onde há inquietação” e o capítulo 31 deste mesmo livro tem um ensino maravilhoso da Palavra de Deus acerca do efeito e dos benefícios da mulher, esposa e mãe dedicada, ajudadora e auxiliadora do marido, reflectindo o plano de Deus para nós mulheres, enquanto esposas, mães e servas.

Todo o lar é abençoado através da nossa posição no lar. O nosso desempenho é de uma importância tal que a Palavra de Deus nos alerta também em Provérbios 14:1: “A mulher sábia edifica a sua casa, mas a tola a derruba com as suas próprias mãos.” Se nós olharmos com atenção para a Palavra de Deus, vamos ver o quanto esta Palavra nos ensina sobre a família. Como a Palavra de Deus é verdadeira e se cumpre nos nossos dias!

A minha vida não ficou sem planos e sem objectivos

Finalmente, gostaria de dizer que o facto de ter feito esta opção não significa que a minha vida ficou sem planos e sem objectivos. Estes, agora, é que são diferentes! Entretanto, outras oportunidades e actividades podem surgir, como tem acontecido comigo: o gosto pelas artes, junto com o meu marido e com o meu filho Filipe, que desenha com muito talento!

Pela Palavra de Deus, tenho a certeza que o nosso trabalho de esposa e mãe, não é vão no Senhor, e aquilo que plantarmos segundo a Palavra de Deus e a Sua vontade para a nossa vida dia após dia junto deles, vamos colher em amor, respeito, alegria de Deus, e viver uma vida para a glória de Deus! É este o meu desejo e oro para que Deus me ajude a levar esta missão até ao fim na Sua presença!

“Não tenho maior alegria do que esta, a de ouvir que os meus filhos andam na verdade.” (3 João 4)

Isabel Constâncio

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